Tente imaginar-se nos últimos momentos de sua vida, bambeando na linha da morte. O que você sente? Eu digo: medo. Este sentimento não chega pela incerteza do que vem depois, mas desabrocha por saber que está deixando tanta coisa por fazer, deixando tanta coisa pra traz. Ficam todos e tudo o que ama, tudo o que você conhece e confia. O medo vem, porque em segundos nada disso pertencerá mais a você.Enfim, a "escolha" já foi feita, você se foi...Você está agora num lugar onde parece que ninguém nunca jamais esteve, você é o real nowhere man, sitting in your nowhere land, making all your nowhere plans for nobody. Aqui, do outro lado, a internet é o seu Chico Xavier, e você uma alma sem corpo, psicografada pela tecnologia. Isso faz você se manter vivo por um tempo, te conecta ao mundo que deixou, te faz dizer coisas que só a distância faz dizer, traz sentimentos que só a língua portuguesa tem, e te faz entender o real significado dessa palavra.Mas, aqui, do outro lado, aos poucos você vai renascendo. Começa a engatinhar, a esboçar algum "q" de vida. Vai conhecendo novas pessoas, vai criando novas amizades, novos desejos, aprendendo a gostar de novas coisas... Vai entrando em uma nova vida. Uma vida totalmente inesperada.Então, em um dado momento, você nota que se distanciou tanto do mundo em que seu corpo, e que ainda está tão longe do seu novo parto, que a única coisa com a qual você encontra é com você mesmo! Tudo depende apenas de você, e somente disso. Por perto não há mais ninguém cujo amor seja confortante a ponto de você ter ombros para chorar ou simplesmente se entregar a um abraço longo. Essa e a parte difícil, você chegou numa encruzilhada.É uma muralha que te separa dos dois mundos, e ao mesmo tempo te conecta a eles: o virtual, que você não quer esquecer de vez, pois tudo o que ama ficou por lá, e o real, que não quer entrar, já que tem medo sentir tudo novamente e, outra vez, morrer no final. Este novo mundo, porem, atrai você de maneira insuportável. Ele inspira independência, aventura e emoção. Você vai viver este mundo. Vai viver como uma criança, vai rir sem conhecer o porquê, vai aprender sem perceber que esta aprendendo, vai amar tudo com muita força e detestar muito com muita com a mesma intensidade – não necessariamente um ou outro; e nem vai precisar de muito tempo pra migrar entre eles – porque lá, tudo é novo! A comida, o clima, o ar, os amigos, a língua, a rotina, as bebidas, as pessoas, as paisagens, a cultura toda, as músicas, as crenças...Então você atinge um ponto notável: Você não é mais quem era e nem sua vida é como foi. Entrará em dilemas e confusões mentais que parecerão nunca se resolverem. Vai pensar por vezes em desistir, vai duvidar, muitas vezes, de você mesmo, e vai confiar sua vida a qualquer destino, já que não tem um em mente - sequer tem uma mente... Assim, começa um conflito que parece ser interminável, entre os seus dois mundos. A maneira que você sempre viveu e tudo em que sempre acreditou são agora desafiados sanguinariamente pela maneira que vive e pelas coisas em que começar a acreditar.Começam, então, a se formar em sua mente – e sua mente começa a se formar –novos pontos de vista sobre a vida e sobre o viver. Agora muito mais maduros, reais e flexíveis! Naturalmente, você sentirá que precisa organizar a bagunça que ficou, e que precisa se desligar de tudo para conseguir isso. É preciso um tempo com você, é preciso um anular dos dois mundos que viveu, é preciso viajar, é preciso se esconder de tudo pra tentar reencontrar-se – novamente.Nesta viagem, quando menos imaginar, virá a calmaria. Virá aquele final de tarde indo pra casa depois do batente, com o sol baixando e dizendo pra você: Parabéns! Você está vivo!Servus!
"Só quando a liberdade externa e interna são constantes e conscienciosamente perseguidas há possibilidade de desenvolvimento e aperfeiçoamento espiritual e, portanto, de aprimorar a vida externa e interna do homem." (Albert Einstein - Sobre a Liberdade)
Sobre mim...
- Guilherme de Abreu
- Botucatu, São Paulo, Brazil
- "I'll be around to grow...Who I was before, I cannot recall..."
quinta-feira, 28 de janeiro de 2010
O êxodo
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Grande Guigu!!!
ResponderExcluirUma honra ser o primeiro a comentar no seu Blog!!
Quando você me mostrou esse texto na sua casa aind, gostei muito dele... e me identifiquei com muitas das coisas que você falou... longe de ser uma verdade absoluta ele é um testemunho sincero de alguém que passou por experiências interessantes, algumas das quais tive a honra de compartilhar...
O que você escreveu em muitos pontos me lembra partes da transformação pela qual eu estou passando...
Boa sorte com seu blog meu garoto!!